A Deco Proteste e os seus testes

EDIT: Na sequência de ter sido contactada pela colega que realizou este estudo, edito aqui algumas informações que ela me forneceu e, facto, estavam inicialmente incorrectas. Escrevi este artigo numa noite, já tarde depois de um dia de trabalho e fiz uma pequena pesquisa bibliográfica que não foi, de todo tão extensa como gostaria. Assim, deixo acrescentos de informação, pois não quero incorrecções no que escrevo.

Começo por dizer algumas coisas importantes porque prevejo desde já um apedrejamento público: factos e opiniões não são a mesma coisa. Quando cito legislação ou digo que isto ou aquilo é verdade, não o digo porque acho que é verdade, digo-o sustentado em prova científica e exposta na lei. Ao longo dos anos, neste blog, tenho tido imensas pessoas com dificuldade em discernir as diferenças entre estes dois conceitos, por incrível que pareça. Adicionalmente, quero acrescentar que tenho conhecimento para comentar esta matéria de forma objectiva e informada pois sou mestre em Ciências Farmacêuticas e Pós-Graduada em Dermofarmácia e Cosmética, tendo trabalhado 2 anos na indústria cosmética, dos quais 6 meses foram passados como avaliadora de segurança de produtos cosméticos.

Ora bem, ontem a Deco Proteste publicou esta comparação de batons. Giro, giro não é?

Comecemos do início. A Deco Proteste começa o seu vídeo de ilustrações por dizer que “a Comissão Europeia estima mesmo que cada pessoa aplica 57 mg de batom hidratante diariamente”.

O erro começa aqui, na medida em que há uma assunção de ingestão total de um batom, que basta pensar um pouco e é absolutamente irrealista. No entanto, na legislação europeia, a abordagem aos cosméticos é sempre de worst case scenario, ou seja, prevê-se o pior dos piores. Por isso mesmo, é assumida uma ingestão de 100% destas 0,057g.

Depois, o critério usado para estas aferições não foi a lei dos cosméticos, mas sim a lei alimentar! Pasmem-se, estes compostos MOSH e POSH de que tanto falam tão pomposamente, mais não são do que gorduras trans-saturadas derivadas do petróleo (e já agora, senhores, trans- neste caso, escreve-se sempre com itálico, sim?). Estes 10% de que falam são então para alimentos, ingeridos a 100% e que atravessam tooooodo o nosso sistema digestivo.

Ao contrário do que escrevi acima, MOSH são de facto mineral oil saturated  hydrocarbons (hidrocarbonetos saturados derivados de óleo mineral) que, por acaso, até têm uma estrutura -trans, mas não são o que disse que eram, pois fui ver a estrutura molecular e tirei conclusões precipitadas de alguém que já não vê química orgânica há alguns anos. Os MOAH são mineral oil aromatic hydrocarbonsJá os POSH (polyolephin oligomeric saturated hydrocarbons)  só são doseados  habitualmente em alimentos e são analiticamente impossíveis de distinguir dos MOSH pela sua estrutura semelhante. Consequentemente, nesta análise, não é possível dizer se existiam MOSH ou POSH.

Agora, por favor, não confundam as duas entidades. Enquanto nos EUA temos a FDA que mistura comida e fármacos e cosmética, na Europa, as regras são mais apertadas na maioria das situações, sendo que a cosmética está então associada aos medicamentos e, consequentemente associada ao Infarmed e não ao Ministério da Agricultura, também me pareceu que existiu confusão a esse nível, pois citaram algures o ministério da agricultura.

Aconselho a leitura deste Regulamento Europeu que é o vigente acerca da cosmética, em especial a parte dos anexos que fala das substâncias proíbidas! Neste caso, estes hidrocarbonetos não se encontram nas proíbições pela lei, mas sim em recomendações guidelines europeias, não sendo proíbidos, mas sim desaconselhados, coisas bem diferentes e esta distinção não me pareceu feita.

Adoro particularmente que só alguns batons sejam referidos quando outros, do mesmo grupo e que certamente, têm as mesmas matérias-primas de base, se safaram.

Depois de analisar a bibliografia onde se baseou este estudo, tiro duas conclusões: claramente, um dos fornecedores europeus de óleo mineral e vaselina, devia analisar melhor os seus lotes e a segunda conclusão é que, na realidade, isto não representa uma verdadeira ameaça para a saúde, pois as bases com as quais são feitos estes cálculos, são de facto o extremo contemplado, pelas razões que referi acima.

Gostava mesmo que a Deco começasse a disponibilizar os métodos utilizados para os seus estudos, pois, sem estes, não é possível compreender se o estudo é ou não credível. E isto, não é de todo suificiente, pois uma descrição dos métodos inclui o método utilizado, o equipamento e o intervalo de confiança dos mesmos.

Espero ter esclarecido e não confundido ainda mais.

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